Jerusalém, o centro do mundo

Quase 3 mil anos de triunfo e tragédia marcam a cidade sagrada de três das maiores religiões do planeta. Saiba por que a paz do mundo depende do que acontece lá

por Reinaldo José Lopes

Em uma das passagens do filme Cruzada, de Ridley Scott, o cavaleiro cristão Balian de Ibelin faz uma pergunta complicada ao sultão Saladino. “Quanto vale Jerusalém?”, questiona o cruzado. A primeira e surpreendente resposta de Saladino é “nada”. Mas logo depois ele se volta para seu inimigo cristão, dá um meio sorriso e completa: “Tudo!”

O diálogo é uma criação de Hollywood, mas captura a contradição que a cidade representa para judeus, cristãos e muçulmanos. Afinal de contas, como um pedaço de chão montanhoso e semi-árido, quase sempre habitado por gente mais pobre e menos poderosa que a dos impérios ao seu redor, virou a pedra fundamental da imaginação e das esperanças do mundo?

A resposta está na fé: para 3,6 bilhões de pessoas, mais da metade da população mundial, Jerusalém não é apenas uma cidade. É uma espécie de endereço de Deus aqui na Terra. Para 12 milhões de judeus, é o local onde Javé, o deus dos hebreus, guiou os reinos de Davi e Salomão nos séculos 11 e 10 a.C. Para mais de 2 bilhões de cristãos, é o chão sagrado onde, no século 1, Jesus, o próprio filho de Deus, pregou, foi preso e crucificado e ressuscitou. E, para 1,6 bilhão de muçulmanos, é o local de onde o profeta Maomé ascendeu ao céu logo após morrer em Medina, no século 7.

Não é à toa que, ao menos nos últimos 3 mil anos, a história de Jerusalém se confunda com a da própria civilização. Encravada entre as grandes vias da África, da Ásia e da Europa, a cidade assistiu à chegada de povos tão diversos quanto hebreus, babilônios, persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, francos, visigodos – só para citar alguns. Das sangrentas cruzadas, na Idade Média, até os recentes combates transmitidos pela TV entre árabes e israelenses, a paz de boa parte do mundo continua dependendo da coexistência de cristãos, judeus e muçulmanos na cidade (representados acima, da esquerda para a direita, pela cruz cristã, pela estrela de Davi judaica e pela lua crescente muçulmana).

O que poucos sabem é que, mesmo antes da chegada dos primeiros hebreus à cidade, a região já era ocupada por outros povos – com seus próprios deuses.

Nome de Deus

Que Jerusalém é mais antiga que o povo judeu, nem a Bíblia duvida. Por volta do ano 1800 a.C., o nome Rushalimum, provavelmente uma forma arcaica de Jerusalém, aparece em textos egípcios que fazem referência à região. “Rushalimum provavelmente significa ‘Shalem fundou’”, escreve a historiadora britânica Karen Armstrong em seu livro Jerusalém. Shalem, diz Karen, é o nome de um antigo deus sírio do crepúsculo.

Segundo a Bíblia, os primeiros habitantes de Jerusalém eram conhecidos como jebuseus e consideravam-se quase invencíveis, graças às suas fortes muralhas. Por isso, quando um jovem rei israelita chamado Davi ameaçou tomar a cidade por volta de 1000 a.C., os jebuseus caíram na gargalhada. Acabaram queimando a língua: Davi conseguiu tomá-la após formar um exército com tribos locais. Os jebuseus não foram molestados e continuaram a viver unidos ao povo de Davi e, segundo a tradição, Jerusalém virou a nova capital de toda a região.

Virou? Há controvérsias. Historiadores e arqueólogos contestam a idéia de que, nesse período, a região era um único reino com fronteiras semelhantes às do atual Estado de Israel. “Essa idéia é uma construção ideológica”, diz o arqueólogo israelense Israel Finkelstein, da Universidade de Tel-Aviv. Para ele, é mais provável que, na época, Jerusalém fosse capital apenas do reino de Judá, no sul atual de Israel, enquanto o norte seria parte de outro reino, mais fértil e rico que o de Davi. A lenda de um reino unido e poderoso teria sido criada por volta do século 7 a.C., quando os governantes de Judá reivindicavam a expansão de seu território após serem derrotados pelo Império Assírio, seu vizinho mais poderoso ao norte.

O lendário Templo de Javé, o Deus da Bíblia, provavelmente já havia sido construído no alto do monte Sião, em Jerusalém, por Salomão. Assim como os gregos acreditavam que seus deuses viviam no monte Olimpo, Javé passou a ser imaginado como um rei que vivia no topo do Sião, em Jerusalém. A rigor, pouca coisa diferenciava o templo de qualquer outro centro de culto da região, a não ser pela ausência de imagens do próprio Javé. É então que entra em cena uma inovação religiosa de conseqüências colossais: começa a surgir ali a idéia de que apenas um deus era o verdadeiro.

A força da crença num Deus único, contudo, não foi suficiente para garantir que a região conseguisse se proteger de uma série de invasões. Após serem quase engolidos pela Assíria, os judeus só escaparam porque os babilônios, liderados por Nabucodonosor, atacaram os assírios e se contentaram em transformar os descendentes de Davi em vassalos de seu reino. Mesmo assim, os cidadãos de Jerusalém se revoltaram – e pagaram o preço. Em 586 a.C. a cidade foi tomada e o Templo de Javé foi arrasado. O último rei de Judá foi deportado para a Mesopotâmia, junto com toda a elite do reino.

Parecia o fim do mundo, mas a esperança dos judeus no exílio de retornar à terra prometida virou realidade pelas mãos do rei persa Ciro, que derrotou a Babilônia e instruiu os deportados a voltarem a Jerusalém e reconstruírem seu templo. Por quase 200 anos os judeus foram súditos da Pérsia, até que os macedônios de Alexandre, o Grande, conquistaram o Império Persa e levaram a influência da cultura grega para a região.

A difusão dos valores gregos era vista por muitos judeus como uma ameaça: após o exílio, eles haviam se tornado monoteístas para valer e não estavam dispostos a permitir que Javé dividisse o monte sagrado de Sião com “falsos” deuses como Zeus ou Atena.

Ainda assim, o confronto só se tornou inevitável quando o rei Antíoco Epífanes, da dinastia selêucida (uma das linhagens de generais que sucederam a Alexandre), quis fazer com que os judeus assimilassem a tradição grega na marra. Ele ousou reformar o templo dos hebreus e dedicá-lo a Zeus Olímpio em 167 a.C., coisa que os judeus não podiam tolerar. A resistência judaica acabou enredando Antíoco e seus sucessores em combates de guerrilha que eles descobriram ser incapazes de vencer. Os líderes da revolta, da família sacerdotal dos Macabeus, venceram e transformaram a Judéia em um reino independente pela primeira vez em cinco séculos.

No poder, os Macabeus passaram de oprimidos a opressores, impondo pesados impostos e travando batalhas de conquista. Uma guerra civil entre dois membros da nova linhagem real terminou abrindo caminho para a chegada dos romanos. Liderados por Pompeu, eles tomaram a cidade e invadiram o templo em 63 a.C. Antípatro e seu filho Herodes, ministros da facção dos Macabeus que se aliara aos romanos, receberam de Pompeu o governo da Palestina. Após a morte do pai, Herodes foi chamado de rei. Na prática, entretanto, Jerusalém agora pertencia a Roma.

Uma nova religião

De certa forma, Herodes tinha alguns traços daquele vilão que os Evangelhos pintam. Não hesitava em mandar matar seus opositores – até os próprios filhos. Embora judeu, erguia templos pagãos para o imperador Augusto e era visto como puxa-saco dos romanos. Em compensação, construía obras gigantescas para agradar a elite judaica. É dele a suntuosa reforma do Templo de Javé – o local virou uma das mais deslumbrantes construções do mundo antigo.

A reforma do templo fez com que a cidade atraísse centenas de milhares de peregrinos. Em festas religiosas como a Páscoa, por exemplo, quando os judeus comemoram a travessia de Moisés para a Terra Prometida, a população de Jerusalém saltava de 120 mil para 600 mil pessoas. Toda essa aglomeração criava o cenário ideal para que líderes religiosos fizessem protestos contra os pesados impostos que os judeus pagavam aos romanos. E, segundo os pesquisadores, quando o judeu conhecido como Jesus de Nazaré esteve no templo por volta do ano 30 do século 1, ele devia saber o risco que corria. Após ter pregado contra o mercantilismo do templo, Jesus foi crucificado como um criminoso comum. Ele poderia ter morrido anonimamente como dezenas de líderes religiosos na cidade, não fossem seus seguidores, que, após a execução, continuaram difundindo seus ensinamentos. Segundo eles, Jesus havia ressuscitado, o que provaria que ele era o messias. Nascia uma nova religião.

Os primeiros cristãos, inicialmente, não abandonaram as práticas judaicas. Na verdade, eram vistos como uma ala dentro do judaísmo. Continuaram a freqüentar o templo para pregar os ensinamentos de seu mestre para os israelitas e, mais tarde, também para pagãos.

Com o passar das décadas, uma série de revoltas tornou a região de Israel uma panela de pressão, sem que ocorresse aos romanos diminuir o fogo. A explosão final veio no ano 66, quando, na cidade costeira de Cesaréia (onde havia uma população mista de pagãos e judeus), uma sinagoga foi profanada sem que os soldados romanos se mexessem para impedir. Em Jerusalém, o sumo sacerdote parou de realizar o sacrifício dedicado ao imperador Nero, ato interpretado como declaração de independência. Os judeus massacraram a guarnição romana da cidade e tomaram o controle de toda a região.

Roma mostrou que não estava brincando ao mandar para lá seu melhor general, Vespasiano, e 60 mil soldados. A resistência na Galiléia e na Judéia foi sendo estrangulada, até que aos rebeldes só restou Jerusalém. Era só questão de tempo até que o cerco enfraquecesse os judeus. Os romanos conseguiram romper as muralhas e, em 28 de agosto do ano 70, invadiram e incendiaram o templo. Milhares de judeus foram mortos e Jerusalém foi arrasada. Os seguidores de Jesus ou fugiram antes do cerco ou foram massacrados. A partir daí, os cristãos, como já eram chamados, seriam um grupo formado por judeus das outras regiões do Império Romano e por pagãos convertidos.

Quando tudo indicava que os israelitas não iriam mais afrontar Roma, uma nova revolta explodiu no ano 131 – o imperador Adriano anunciou que cobriria as ruínas de Jerusalém com uma nova cidade pagã, Aelia Capitolina. Liderados por Simão Bar-Kochba, os judeus resistiram por três anos, mas foram derrotados outra vez. Os sobreviventes foram proibidos de entrar em Jerusalém.

A Cruz e o crescente

Parecia o fim de Jerusalém. Até que, no século 4, a seita judaica liderada por Jesus já havia convertido uma multidão de pagãos, incluindo imperadores romanos, como Constantino. Aconteceu então algo que seria inimaginável menos de três séculos antes: o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano.

A conversão de Roma provoca, de cara, duas grandes mudanças no status de Jerusalém. A primeira é a perda da posição de centro do cristianismo, transferida para Roma e, mais tarde, Constantinopla, capital do Império Bizantino, herdeira de Roma no Oriente. Por outro lado, a difusão do cristianismo faz crescer a curiosidade pela terra onde Jesus havia morrido. Cada escombro da velha Jerusalém parecia conter relíquias. Com a cristianização da cidade, novas e grandiosas basílicas ali se espalharam.

Assim como já havia ocorrido com os macabeus, os cristãos, antes perseguidos, viraram os perseguidores. Sanções sociais e econômicas foram impostas aos judeus. O monte do velho templo virou uma imensa lixeira e os atos de violência contra os judeus que haviam conseguido retornar à cidade tornaram-se populares. Não admira que, no ano 614, os judeus tenham apoiado uma invasão persa na cidade. O imperador bizantino Heráclio retomou Jerusalém e a Palestina em 629 e promulgou uma lei que exigia a conversão para o cristianismo de todos os judeus.

Heráclio, contudo, não tinha levado em conta uma nova e poderosa crença monoteísta que acabara de dominar os oásis e desertos da Arábia: o Islã.

Decididos a ampliar as fronteiras de seu império, os seguidores de Maomé, liderados pelo califa Omar, foram bater nos portões de Jerusalém em 637. A cidade mudou de mãos de novo e o acontecimento foi saudado como uma libertação divina pelos judeus da Palestina. E com razão: os conquistadores islâmicos se comportaram de maneira extremamente civilizada, respeitando as propriedades e a fé de todos os habitantes da cidade que eles chamavam de al-Quds, “a Santa”, já que o Islã também venerava Jesus e as figuras do Antigo Testamento como seus profetas. A tradição islâmica também pregava que Maomé havia subido ao céu a partir do monte do templo, o que fazia de Jerusalém a terceira cidade mais sagrada do Islã, depois de Meca e Medina (veja quadro na pág. ao lado). Dois santuários belíssimos, a mesquita Al-Aqsa e o Domo da Rocha, foram construídos pelo califa Omar na cidade.

O vaivém de dinastias muçulmanas não parece ter sido capaz de perturbar a vida da cidade. Mas o confronto constante delas com o Império Bizantino, bem como uma renovação da peregrinação a Jerusalém na Europa Ocidental, acabaram com a paz na região. Os bizantinos pediram ajuda ao papa para tomar Jerusalém dos muçulmanos. A resposta veio de forma esmagadora, com as Cruzadas. Gente de todas as classes sociais da Europa marchou para a terra santa.

Após esmagar os muçulmanos e judeus na cidade, os cruzados tomaram Jerusalém em 1099. A cidade se tornou a capital de um reino católico, governado por nobres franceses. O Reino Latino de Jerusalém, como ficaria conhecido, durou quase dois séculos, mas era um Estado artificial, que dependia da imigração e do apoio contínuo do Ocidente para existir. Em 1291, os europeus foram expulsos de toda a terra santa pelos muçulmanos. No século 16, outro grupo islâmico, o dos turcos otomanos, passa a tomar conta da região.

Apesar de continuar despertando a imaginação do Ocidente, a prosperidade da cidade foi afetada após tantas guerras. A decadência do governo turco fez com que, no começo do século 19, Jerusalém não contasse com mais de 9 mil habitantes. Mas o marasmo da cidade não duraria muito.

Jerusalém renasce

Ao longo do século 19, a cidade revela seu talento para ressurgir das cinzas. A princípio, os responsáveis por esse renascimento foram as potências imperialistas européias. Inglaterra, França, Alemanha e outras nações reforçaram sua presença no Oriente Médio, transformando Jerusalém em um centro estratégico para seus negócios no Oriente.

A partir da segunda metade do século, esse crescimento é acompanhado de um novo movimento que definiria os futuros conflitos entre judeus e árabes na cidade: o sionismo. Usando o nome do monte Sião, local do velho templo de Jerusalém, os sionistas lutavam por uma nação judaica independente – e que lugar melhor para isso que seu lar ancestral? Embora fossem, em geral, sofisticados intelectuais, eles percebiam que os países europeus ainda consideravam os judeus um povo discriminado. O aumento do anti-semitismo em toda a Europa parecia confirmar esses temores.

Devagar, com o apoio dos sionistas, imigrantes russos, poloneses e ucranianos foram adquirindo lotes na Palestina, buscando iludir ou subornar o governo otomano, bastante hostil aos judeus. O processo deixou muitos arrendatários palestinos sem terra, contribuindo para semear o ódio contra os judeus na cidade. Os líderes sionistas nunca declaravam em público, mas seu objetivo era deter o controle total da região. A desconfiança mútua logo se instalou. “Os palestinos, desde o começo, nunca entenderam a reivindicação da terra por parte dos sionistas. Eles não sabiam ou não queriam saber das raízes dos judeus na região”, escreve o historiador israelense Benny Morris em seu livro Righteous Victims (“Vítimas íntegras”, inédito no Brasil). “Os sionistas, por sua vez, não tinham o menor interesse pelos laços dos árabes com aquele chão, nem pela santidade de Jerusalém na cultura islâmica.”

Os sionistas tinham a seu lado grande capacidade de negociação (afinal, estavam acostumados à política européia), considerável apoio financeiro e uma determinação de ferro. Com o fim da Primeira Guerra, o Império Turco-Otomano, que ficou do lado derrotado, perdeu a região para os britânicos, que manifestavam bastante simpatia pela idéia de um “lar para os judeus” com sede em Jerusalém.

O Holocausto contra os judeus na Segunda Guerra só fez aumentar o senso de urgência do Ocidente pela causa dos sionistas. Ironicamente, foram os judeus os pioneiros do terrorismo na região, colocando bombas em mercados e praças para tentar forçar britânicos e palestinos a aceitar seu plano de um Estado independente. Em 1948, a fundação do Estado de Israel pelas Nações Unidas e a guerra que se seguiu marcaram o triunfo dos judeus – mas apenas parte de Jerusalém, justamente o lado ocidental, distante da Sião histórica, ficou em mãos judaicas (o plano original da ONU era fazer da cidade uma zona internacional).

Os países árabes, incapazes de engolir a derrota, voltaram a se preparar para a guerra. Em 1967, prestes a lançar um ataque maciço, liderados pelo Egito, viram Israel ser mais rápido – muito mais rápido. A Guerra dos Seis Dias, como ficou conhecida, terminou com a ocupação completa, pelos israelenses, da Palestina e de Jerusalém, além do Sinai, no Egito. Quando o Muro das Lamentações, o último resquício do Templo de Herodes, foi tomado, a comoção era indescritível. Mais de 700 soldados se abraçaram e choraram diante do santuátio judaico. “Regressamos aos nossos lugares mais sagrados; regressamos e nunca os deixaremos”, jurou o general Moshe Dayan.

Desde então, pouca coisa mudou para a cidade santa, apesar da recente autonomia dos palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Sucessivos governos israelenses reiteraram a política de que Jerusalém é a capital “eterna e indivisível” de Israel. Os palestinos, por sua vez, exigem que ela seja a sede de seu futuro Estado. Quaisquer que sejam as reviravoltas que o futuro reserve, uma coisa está clara: a história da cidade sagrada revela que ambas as exigências exclusivistas não fazem sentido. Ao longo dos séculos, só os conquistadores tolerantes, capazes de pôr em prática o ideal de compaixão das três religiões monoteístas, parecem ter conseguido manter presença na cidade por muito tempo. Os antigos judeus costumavam traduzir o nome de Jerusalém como “Cidade da Paz”. Hoje essa idéia pode não passar de ficção. Mas já é hora de levá-la a sério.

 

Salomão, o empreiteiro

Suas grandes obras mudaram a fisionomia de Jerusalém

Filho do rei Davi, Salomão é considerado o mais importante monarca de Israel. Durante seu governo, por volta do século 10 a.C., a cidade de Jerusalém mudou de fisionomia. Sua “gestão” foi marcada pela construção de grandes edificações que tornaram a cidade um grande centro regional. Entre suas obras mais famosas estão um muro fortificado para cercar a cidade, um suntuoso palácio real e o famoso Templo de Javé. Dotado de uma visão ecumênica, Salomão construiu santuários de outras religiões nas cercanias da cidade para que os comerciantes estrangeiros que transitassem por Jerusalém se sentissem em casa (séculos depois, esses santuários seriam destruídos por Judeus menos tolerantes). Mas é claro que todo esse esforço tinha um preço alto para seus súditos: a maioria dos homens era obrigada a se submeter a trabalho forçado durante um mês a cada três. Segundo a tradição, nem mesmo os descendentes das tribos mais nobres de Israel conseguiam escapar do trabalho forçado.

Os últimos dias de Jesus

Ele sabia o risco que corria ao pregar em Jerusalém

A festa da Páscoa do ano 3790 do calendário judaico foi marcada por uma tragédia para um judeu e seus seguidores. Após desafiar o poder romano e o templo de Jerusalém em meio à mais importante comemoração religiosa da cidade, Yeshua (Jesus, em hebraico) foi condenado à morte na cruz. Será que Jesus sabia o risco que corria ao decidir ir para Jerusalém provocar as autoridades romanas em frente ao templo religioso mais importante da cidade? Para o pesquisador Richard Horsley, professor de Ciências da Religião na Universidade de Massachusetts e autor do livro Bandidos, Profetas e Messias – Movimentos Populares no Tempo de Jesus, a data escolhida por Jesus era ideal para que um líder religioso chamasse atenção para as suas idéias. Afinal, a festa tinha forte conteúdo político, já que comemorava a libertação dos hebreus no Egito – no tempo de Jesus, os hebreus eram dominados pelos romanos. Poucos poderiam imaginar que, alguns anos depois, milhares de pessoas peregrinariam todos os anos para Jerusalém para rezar diante dos locais por onde ele passou antes da morte.

De Jerusalém para o céu

Maomé nunca pisou na cidade, mas ascendeu ao céu de lá

Junto com o cristianismo e o judaísmo, o islamismo é uma das três religiões abraâmicas. Ou seja: os muçulmanos reconhecem o patriarca Abraão, o mesmo do Antigo Testamento, como o pai da nova religião. A ligação entre o islamismo e essas duas religiões é tão forte que, no início da sua pregação, o profeta Maomé (570-632) e seus seguidores rezavam voltados para a cidade de Jerusalém. Somente depois de entrar em conflito com tribos judaicas é que o profeta resolveu marcar a independência da nova religião em relação aos judaísmo ao fazer com que todos os seus discípulos orassem voltados para o santuário da Caaba, na cidade de Meca – como fazem até hoje. Ainda assim, Jerusalém continuou a ser uma das três cidades sagradas do Islã, junto com Meca e Medina. Afinal, os muçulmanos acreditam que, apesar ter morrido em Medina, Maomé ascendeu ao céu, com sua égua branca, de um rochedo que estaria localizado em uma mesquita na cidade.

Jerusalém em cinco momentos

De Salomão até hoje, acompanhe a evolução da cidade sagrada

1. O Templo de Salomão

Por volta do século 10 a.C., quando Salomão governava Israel, Jerusalém se resumia a um pequeno povoado cercado de muralhas de pedras de alvenaria de 5 a 7 metros situado na encosta de uma colina. Na base da colina ficava o Palácio Real, em estrutura quadrangular, e, no alto, o edifício do Templo.

2. O segundo templo

Na época em que Jesus foi condenado e morto em Jerusalém, quando os romanos dominavam a região, o novo Templo de Salomão acabara de ser reformado pelo rei Herodes. A construção ganhou uma fisionomia imponente com direito a um pátio amplo e uma ponte ligando o templo a uma das portas de Jerusalém.

3. Jerusalém muçulmana

No século 7, ao conquistar a cidade, os muçulmanos transformaram o monte do Templo na esplanada das Mesquitas. Em 691, o califa Abd El Malik construiu no alto do monte a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha (de onde Maomé teria ascendido ao céu). Na época, já existia a Igreja do Santo Sepulcro no lugar em que Jesus morreu.

4. Cidade nas cruzadas

Em 1099, em um ataque fulminante contra muçulmanos e judeus, os cruzados cristãos tomam a cidade, transformam as mesquitas muçulmanas em templos cristãos e constroem uma nova Igreja do Santo Sepulcro, a mesma que se encontra lá até hoje. Todos os anos, milhares de cristãos percorrem as vias que Jesus trilhou até a crucificação.

5. Jerusalém moderna

Desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel venceu seus vizinhos árabes, a cidade voltou a ser controlada totalmente pelos judeus. Eles podem orar novamente em seu santuário mais importante, o Muro das Lamentações, a única ruína do Segundo Templo Judaico que sobreviveu por mais de 2 mil anos

 

Saiba mais

Livros

Jerusalém – Uma Cidade, Três Religiões, Karen Armstrong, Companhia das Letras, 2000

Obra definitiva sobre a história da cidade. A grande quantidade de mapas e plantas dos edifícios de Jerusalém ao longo dos séculos é uma atração à parte.

Righteous Victims, Benny Morris, Knopf, 2001

O foco é a Palestina, mas Jerusalém tem papel de destaque no embate entre judeus e palestinos. A obra revela que a violência sempre fez parte da relação entre os dois grupos.

Quem Matou Jesus?, John Dominic Crossan, Imago,1995

Escrito pelo especialista na vida de Jesus, o livro captura a atmosfera da cidade sob o domínio romano no século 1 d.C.

Site

www.cityofdavid.org.il

Traz informações e imagens preciosas da evolução da cidade, mas peca por ignorar os legados cristão e muçulmano.

 

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edição 076

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edição 076, novembro 2009 Babilônia.
Um mergulho profundo na civilização que nos deu a escrita, a matemática, a astronomia e a Torre de Babel.

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