Diz-se em Cuba que as grandes mudanças têm data certa para ocorrer: 1º de janeiro. Foi nesse dia, em 1899 que a bandeira da Espanha desceu dos mastros do país, e, após um longo movimento de independência, subiu aos céus caribenhos o símbolo dos novos donos da ilha: a bandeira listrada dos Estados Unidos. Os revolucionários cubanos já expulsavam praticamente os espanhóis quando 15 mil soldados americanos desembarcaram em Cuba e só saíram de lá três anos depois, quando incluíram na Constituição do novo país um artigo inusitado: a chamada Emenda Platt, que permitia que os americanos entrassem e saíssem como e quando quisessem da ilha – o que fizeram de forma direta e indireta durante 60 anos, até outro 1º de janeiro.
No Ano-Novo de 1959, Fidel Castro, comandante de um exército rebelde com pouco mais de 900 homens, liderou um levante popular em Havana, a capital do país. Depois de dois anos na selva, ele e seu grupo de maltrapilhos e barbudos – no qual estavam seu irmão Raúl, Che Guevara e Camilo Cienfuegos – derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista, que governava com o apoio do governo e empresas americanos. As relações entre as duas nações eram antigas e intensas e a presença de americanos era tão comum na ilha, que está a apenas 144 quilômetros da Flórida, que na década de 50 a expectativa era que Cuba se tornaria, a qualquer momento, o 52º estado americano. Além da cláusula na Constituição, os Estados Unidos guiavam a política cubana por meio das empresas que controlavam a produção de frutas e cana-de-açúcar – o principal produto da ilha – no interior do país. Em Havana, turistas americanos passavam os dias ensolarados entre a praia e os barcos de pesca e, as noites, em bordéis e cassinos.
Durante os anos da guerrilha em Sierra Maestra, o clima ficou tenso entre os velhos amigos. Em plena Guerra Fria, a preocupação dos Estados Unidos era impedir o avanço do socialismo e, por isso, os diplomatas americanos em Havana receberam a incumbência de investigar o movimento rebelde. “O parecer da embaixada poderia ter determinado uma intervenção militar. Mas, na época, as tendências comunistas de Castro não estavam claras e a invasão foi descartada”, diz o historiador americano Wayne Smith, autor de The Closest of Enemies (O Mais Próximo dos Inimigos, inédito no Brasil). Smith trabalhava na embaixada em Havana, na época.
Durante os primeiros meses do novo regime, a diplomacia americana preferiu acreditar que Fidel seria apenas mais um ditador latino-americano com o qual teria de negociar. No entanto, no fim de 1959 e em 1960, as medidas adotadas pelo governo de Castro indicaram que a ilha começava a assumir um perfil político semelhante ao soviético. “Ele iniciou uma extensa reforma agrária, nacionalizou fazendas, usinas de açúcar, indústrias e propriedades urbanas, medidas quase inacreditáveis, dentro da área de influência direta dos Estados Unidos”, diz a historiadora Claudia Furiati, autora de Fidel, uma Biografia Consentida.
A primeira retaliação americana foi a determinação, em 1960, de um bloqueio econômico à ilha – quem quisesse continuar comprando e vendendo para os Estados Unidos deveriam interromper qualquer relação comercial com Cuba. A ameaça está de pé até hoje. A segunda ação foi orquestrada pelo Serviço de Inteligência Americano, a CIA, em abril de 1961. No dia 15, aviões de guerra bombardearam os arredores de Havana. No dia seguinte, Fidel fez um de seus longos discursos em que, pela primeira vez, declarou a natureza socialista da revolução cubana (coisa que relutara em fazer), numa clara tentativa de atrair a simpatia (e a proteção) soviética. Naquela manhã, Cuba tornou-se o primeiro – e único – país socialista do continente. À noite, cerca de 1,4 mil homens, entre mercenários e voluntários recrutados entre os dissidentes cubanos que viviam em Miami, desembarcam em Playa Girón, na Baía dos Porcos. Depois de 72 horas de combates, os contra-revolucionários foram derrotados e o Exército cubano fez 1197 prisioneiros, entre eles diversos feridos, além de causar mais de 200 baixas aos invasores. Após oito meses, os presos foram trocados com os Estados Unidos por alimentos e remédios avaliados em 54 milhões de dólares.
O episódio foi a gota d’água para convencer Fidel que para manter a ilha segura seria inevitável um acordo com os soviéticos. A aproximação incluiu contratos econômicos que romperam o bloqueio: em troca de açúcar, Cuba passou a receber petróleo russo. Em troca, a União Soviética penetrava no coração da América, jogando no lixo o tratado de Yalta de 1945, que havia definido as áreas de influência das grandes potências após a Segunda Guerra. Cercados na Europa, onde os americanos mantinham bases na Alemanha, Itália e Turquia, e na Ásia, (pelas bases americanas no Japão, na Coréia do Sul e no Irã), os soviéticos viram uma oportunidade de igualar as condições de tensão da Guerra Fria. No ponto alto desse combate velado, o primeiro ministro russo Nikita Krushov propôs a Fidel instalar ogivas nucleares em território cubano. De junho a agosto de 1962, a potência socialista enviou secretamente a Cuba, 44,5 mil soldados, combustível e equipamento necessário para a construção de uma base de lançamentos. Os mísseis totalizavam 42 ogivas instaladas em foguetes de médio alcance. As obras estavam prestes a ser concluídas quando em uma checagem de rotina, aviões de espionagem americanos descobriram o aparato cubano-soviético. O presidente John Kennedy mandou que navios de guerra cercassem Cuba e exigiu a retirada dos armamentos de lá. A chamada crise de outubro, ou Crise dos Mísseis, colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear. Fidel, animado pela promessa de proteção dada pelos soviéticos, parecia pronto para a briga e afirmou que a hegemonia do “tubarão ianque na América chegara ao fim”. Ao mesmo tempo, mobilizou suas tropas e preparou-se para resistir. “Fidel acreditou no acordo com Krushov e estava pronto para a guerra”, diz Newton Duarte Molon, historiador da Universidade de São Paulo. Porém, na véspera do conflito, Kennedy e Krushov firmaram um acordo de paz sem consultar o líder cubano. Os russos retiram os mísseis em troca da garantia que Kennedy não invadiria a ilha.
Os cubanos sentiram-se abandonados, mais isolados do que nunca. E as relações com os soviéticos esfriaram. Fidel apostou, então, no que chamou de internacionalização da revolução. Cuba passou a financiar guerrilhas na América Latina, na África e na Ásia e passou a fornecer treinamento militar para qualquer um que estivesse disposto a derrubar um governo que julgasse simpático aos americanos, como o Brasil, o México e a Argentina, para ficar em exemplos do continente. Durante quase 30 anos, tropas cubanas apoiaram movimentos guerrilheiros em países como Nicarágua, El Salvador, Honduras, Panamá, Bolívia, Cabo Verde, Guiné Bissau, Congo, Argélia, Namíbia, Angola, Iêmen e Vietnã.
Em 1966, Che Guevara, o maior embaixador dos ideais internacionalistas de Cuba, tornou-se um dos responsáveis em levar a revolução para países da América do Sul. “Em contrapartida, os Estados Unidos lançaram o Plano Mann, que apoiava governos e movimentos anti-socialistas”, afirma Newton. “O medo de uma nova Cuba fez com que os Estados Unidos apoiassem ditaduras na Argentina, no Brasil e no Chile.”
A bronca dos cubanos com os russos, porém, não resistiu à saída de Kruschov e a reaproximação ocorreu em 1972, quando Fidel e o líder soviético Leonid Brezhnev assinaram novos acordos de cooperação. Segundo Claudia Furiati, entre produtos e créditos, a União Soviética gastava, na década de 70, 1milhão de dólares diários para manter viva a vitrine do socialismo na América. Havia dinheiro para investir em educação (que, em Cuba, inclui os esportes) e saúde. A produção de livros ultrapassou 30 milhões de exemplares por ano. E ainda sobrou algum para promover a dança, as artes plásticas e a música.
A partir de 1980, com a eleição de Ronald Reagan, os Estados Unidos voltaram a pressionar Cuba por meio da opinião pública internacional, afirmando que ninguém podia sair da ilha e que todos os cidadãos cubanos eram prisioneiros. A reação de Fidel foi liberar a concessão de vistos e, em seguida, abrir o porto de Mariel, cancelando todas as restrições para a imigração. Criou-se uma ponte Mariel-Miami, por onde passaram 125 mil pessoas.
Em 1984, a economia cubana dava mostras de que não funcionava mesmo com o apoio soviético. Cuba devia a mais de 100 bancos internacionais, na maioria empréstimos de curto prazo. O governo Reagan